A crise começou no mercado imobiliário de risco dos EUA, mas já fez estragos em vários setores financeiros e ameaça atingir a economia real. Veja aqui a opinião do governo e de especialistas sobre esta crise.
A crise que tomou conta do mercado financeiro teve início com o mercado imobiliário de risco dos Estados Unidos (subprime). Este segmento ganhou força com o empréstimo facilitado, o alto volume de dinheiro disponível e a redução das exigências para se obter um financiamento.
A partir de 2001, as financiadoras deste segmento começaram a 'empacotar' este crédito e venderam estas carteiras para bancos de investimento. Desta forma, elas recebiam antecipadamente o valor das operações. E os investidores recebiam o valor emprestado e mais o juro que, no segmento subprime, é bem maior. Este retorno mais elevado atraiu gestores de fundos e bancos em busca de retornos maiores. Para se ter uma idéia, hoje, 4 em cada 5 hipotecas estão vendidas e só uma está com o credor original.
Outro efeito desta facilidade de crédito é que muitos fizeram mais de uma hipoteca durante o boom imobiliário para comprar propriedades para investimento ou um segundo imóvel, acumulando a dívida.
Os fundos de hedge foram os principais compradores dos títulos lastreados por hipotecas Após a euforia do mercado imobiliário, cresceu a expectativa de inadimplência no setor. E o valor dos títulos despencou. Foi o começo da tensão que acabou contaminando o mercado de crédito em geral. Sem saber quem tinham estes títulos e com medo do calote, os bancos deixaram de fazer empréstimo de rotina que faziam para outras instituições financeiras. Os bancos centrais tiveram que agir para conter a alta dos juros nos mercados de empréstimo interbancários e evitar uma restrição ainda maior do crédito.
E o que tudo isso tem a ver com o Brasil?
Para conter os prejuízos com a queda no valor dos títulos lastreados por hipotecas, os fundos de hedge começaram a vender outros ativos, de diferentes setores. Nessa altura, o pânico se espalhou e chegou às bolsas de valores de todo o mundo.
O medo é que a falta de crédito provoque queda no consumo e freie o crescimento das economias. Investidores nervosos deixaram as bolsas em busca de aplicações mais seguras e estrangeiros que haviam investido em mercados emergentes, como o Brasil, estão vendendo ações e títulos. Com essa movimentação toda, os preços dos papéis despencaram.
Posições no governo
No pior dia da crise, na quinta-feira (16), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que "por enquanto" o Brasil está seguro. Para o presidente, o dólar irá continuar flutuando até se ajustar. Ele lembrou que, há três meses, a moeda americana estava em R$ 2,17, valor mais alto do que o alcançou nos últimos dias. Ele avaliou também que a crise atual é problema dos Estados Unidos e que a economia real do Brasil não será afetada.
Do lado do governo, outro que defendeu as condições atuais do país para enfrentar a crise foi o ministro da Fazenda Guido Mantega. Segundo ele, a economia real do Brasil não será abalada. Além disso, as condições econômicas do País para atingir o grau de investimento - considerado com baixo risco de crédito - estão mantidas. Ou seja, dívida pública, dívida interna, reservas internacionais e vulnerabilidade externa. Para Mantega, é cedo para avaliar o impacto da recente disparada do dólar na inflação e possível impacto na trajetória dos juros. O dólar abaixo de R$ 2 era um dos principais argumentos para a manutenção do atual ritmo de queda dos juros, mesmo com demanda mais aquecida.
Já o vice-presidente José Alencar disse ainda que o Brasil poderá sair fortalecido da crise que atingiu as bolsa de valores do mundo inteiro.
Analistas têm posições mais conservadoras
Contudo, o otimismo do governo não é o mesmo sentimento expressado por analistas do mercado financeiro. O representante do Brasil no Fundo Monetário Internacional (FMI), Paulo Nogueira Batista Júnior, por exemplo, acredita que a atual turbulência nos mercados financeiros internacionais é uma nova crise externa e não uma situação temporária. Ele afirmou que a situação internacional é "preocupante" e disse que neste contexto é importante que o Brasil tenha cautela e mantenha o processo de elevação das reservas internacionais. Batista Jr. afirmou ainda que a vulnerabilidade principal da economia brasileira é a estrutura da dívida pública, que é relativamente de curto prazo e tem muita liquidez.
O professor de economia da Universidade Harvard e ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kenneth Rogoff, aponta dois cenários para o mercado cambial brasileiro. No primeiro, o dólar duplicaria seu valor em relação ao real, para um nível próximo de R$ 4,00. No outro, seu valor cairia à metade, perto de R$ 1,00. "É mais provável que o dólar vá para R$ 1,00 do que para R$ 4,00 e isso pode ocorrer muito rápido."
O ex-diretor do Banco Central e sócio da MCM Consultores José Júlio Senna avalia que dois cenários podem agravar a situação nos mercados: uma redução do patrimônio líquido dos consumidores, que provocaria queda do consumo e, por conseqüência, desaceleração da economia americana; e uma piora da saúde dos bancos comerciais. Ele destaca que o Brasil está preparado para passar por esse chacoalhão no mercado e não faz previsões sobre quando o período deve terminar. "Um longo período de oscilações está por vir, pois o centro da crise, o mercado imobiliário americano, ainda deve demorar para se tranqüilizar."
O economista Luiz Fernando Figueiredo, que foi diretor do Banco Central (BC) na gestão de Arminio Fraga, ainda não vê crise no mercado financeiro. Mas alerta que, se a escassez de crédito se aprofundar, 'até instituições saudáveis podem ter problemas'.
Para o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco, sócio da Rio Bravo Investimentos, a atual crise no segmento de crédito imobiliário subprime nos Estados Unidos não deve ter maiores conseqüências se ficar restrita aos hedge funds, avalia "Se os problemas de liquidez não atingirem os bancos, a vida segue."
Uma visão mais amena tem Eduardo Loyo, ex-diretor do BC, ex-representante do Brasil no Fundo Monetário Internacional (FMI) e, desde maio, economista-chefe do UBS Pactual para América Latina. A turbulência internacional, segundo ele, não deve ter maior impacto no crescimento econômico em 2007 nem na política monetária do Banco Central (BC). Loyo diz que a projeção de crescimento para 2007 é de 4,6% e, se vier a ser revista, é provável que seja para cima. Segundo ele, a maior contribuição para o crescimento no Brasil hoje é a demanda doméstica.
Ex-diretor de Política Econômica do Banco Central (BC) e atual diretor-executivo do Banco Itaú, o economista Sergio Werlang viu com bons olhos a atitude do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de reduzir a taxa de juros para redesconto. "É natural haver intervenção dos bancos centrais quando há problema de liquidez", disse. Werlang acredita que a crise financeira global terá impacto sobre a taxa de juros brasileira. "Se o dólar ficar no nível de R$ 2,10, o juro aqui ficará mais alto do que se esperava, o que reduzirá um pouco o crescimento da economia em 2008."
Economia real
Mas tanto governo quanto analistas concordam em um ponto: a importância de a crise não atingir a economia real. A Organização Mundial do Comércio (OMC) alerta que a turbulência no mercado financeiro e imobiliário, além dos desequilíbrios comerciais, deverão gerar um crescimento menor do comércio e da economia mundial em 2008. Além disso, a volatilidade nos últimos dias está aumentando as incertezas para a economia mundial neste ano. Caso este cenário se confirme, a economia brasileira poderá ser afetada.
Às vésperas de bater o martelo nas encomendas para o Natal, importadoras e grandes redes de supermercados estão atentas ao comportamento do câmbio, depois das turbulências ocorridas nos últimos dias no mercado financeiro. A expectativa de ampliar em 10%, em média, o volume de pedidos em relação ao fim do ano passado está, por enquanto, mantida, dizem os empresários. Mas, para escapar do risco de uma desvalorização do real em relação ao dólar, o que encareceria os importados, a tendência é adiar ao máximo o fechamento do câmbio.
Já a indústria calçadista brasileira, uma das mais prejudicadas com a série de desvalorizações do dólar, pregou cautela com a disparada da moeda norte-americana, atrelada à crise imobiliária dos Estados Unidos. No entanto, de acordo com o presidente do Sindicato da Indústria de Calçados de Franca (Sindifranca), Jorge Donadelli, "as empresas que puderem têm de fazer uma operação de hedge cambial (proteção contra as oscilações do dólar) para travar pelo menos parte de suas operações de exportação com o dólar na casa de R$ 2,10", disse.
Na agricultura, a recente valorização do dólar frente ao real, que em tese elevaria os ganhos dos brasileiros que exportam commodities agrícolas, chegou tarde demais para impactar significativamente na renda do setor em 2007, disseram analistas, observando também que a alta da moeda norte-americana ainda é pequena para elevar os lucros. Segundo especialistas, a produção de grãos de 2006/07 está praticamente toda comercializada. E apenas os setores de açúcar e álcool, com mais quatro meses de colheita de cana, e o de café, que está finalizando esse trabalho, poderiam tirar algum proveito da alta do dólar.
Neste contexto, o governo anunciou medidas que facilitarão o crédito para empresas do setor de varejo. O ministro do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, informou que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) passará a oferecer financiamento a todas as empresas varejistas com participação do capital estrangeiro. Para as empresas inteiramente nacionais não há restrições. Mas para as companhias com capital estrangeiro, apenas os segmentos de eletroeletrônicos e alimentos podem contar com os recursos do banco de fomento atualmente.
Além disso, vai aceitar recebíveis (cheques pré-datados, duplicatas e antecipação de cartões de crédito) como garantia para os financiamentos das empresas do setor de varejo. Atualmente muitas empresas do setor têm dificuldade para obter recursos do banco de fomento, por não terem ativos suficientes para garantir a operação.
Mantega disse que o Banco Central brasileiro não vai se preocupar com a turbulência internacional e continuará focado na inflação para decidir sobre novos cortes da taxa básica de juros (Selic). "Se a inflação continua estável há espaço para reduzir as taxas", garantiu. Ele disse ainda que, até o momento, não tem informação de que existe pressão inflacionária.
Mercado financeiro
Se a crise ainda não bateu na economia real do País, o mesmo não pode se dizer do ganho do bolso dos investidores. Os fundos de investimento multimercados comandados por ex-integrantes do Banco Central (BC) aparecem entre os maiores perdedores desde o início da crise nos mercados financeiros internacionais, de acordo com dados do site Fortuna, que acompanha o setor. Esses portfólios são freqüentemente apontados como os hedge funds brasileiros, que assumem posições mais arrojadas em busca de maiores retornos relativos. Eles investem em vários mercados ao mesmo tempo, como renda fixa, dólar futuro, derivativos, entre outros.
Entre os dias 23 de julho e 14 de agosto, o fundo Luxor, administrado pela Opportunity Asset Management, amargou perdas de R$ 95 milhões (12,15%), a maior entre os multimercados classificados como não-exclusivos. Recentemente, o ex-diretor de Política Econômica do Banco Central Afonso Bevilaqua assumiu o comando da instituição. Outros portfólios da Asset apresentaram quedas ainda maiores, embora com impacto reduzido por conta do patrimônio menor.
Também figura na lista das maiores perdas entre os multimercados o fundo da Mauá, gestora de recursos do também ex-diretor do BC Luiz Fernando Figueiredo, que registrou desvalorização de R$ 77,8 milhões (5,46%) no mesmo período. O Gávea Brasil, do ex-presidente do BC Armínio Fraga, acumula uma queda de R$ 55 milhões, o equivalente a 3,46%.
Entre os fundos administrados por bancos de varejo, aparece apenas o Santander, cujos portfólios Alpha e Estratégia apresentam desvalorização de 3,7%. Somados, os dois produtos perderam R$ 138 milhões desde o início da crise.
Apesar da desvalorização recente, apenas os fundos do banco espanhol apresentaram saques mais intensos até o momento. No entanto, a maior parte dos hedge funds têm carência para resgate, o que pode ter freado o movimento.
Mas, na opinião do o economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Nicola Tingas, os bancos e o sistema financeiro brasileiro estão muito mais preparados para enfrentar eventuais perdas provocadas pela oscilação nos mercados financeiros. "A qualidade da gestão de risco das instituições evoluiu muito nos últimos anos", afirmou. De acordo com ele, é pequena a chance de problemas mais graves em alguma instituição.
Duas agências de classificação de risco disseram que os mercados da América Latina estão sofrendo com os problemas do setor de crédito imobiliário de alto risco dos Estados Unidos, mas a região está melhor posicionada para enfrentar crises e as avaliações de crédito dos emissores de dívida dos países não devem ser afetadas, disseram duas importantes agências de classificação de risco. "A América Latina está melhor preparada para resistir a choques externos, uma vez que a região implementou mudanças estruturais para fortalecer os fundamentos econômicos", afirmou a Moody's em nota.
No mercado americano, a semana terminou com o banco central Federal Reserve reduzindo sua taxa de redesconto em 0,50 ponto percentual, para 5,75%, já que os riscos ao crescimento aumentaram de forma significativa, em um movimento inesperado para acalmar investidores em meio às tensões globais com a condições nos mercados de crédito.